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05/02/2012
Escrito por em Análises | 3.175 Leituras

A Apple iniciou esta semana mais uma das suas sérias e decididas incursões em novas indústrias. Desta vez, a empresa de Cupertino tomou de assalto, com pretensões revolucionárias, a indústria das publicações educativas. Dos manuais escolares. E, ao mesmo tempo, tenta catapultar a sua loja de livros electrónicos, iBookstore, que tem vindo a perder ímpeto face à oferta rival da Amazon, com o Kindle e todo o seu ecossistema associado. A Apple vai -- e é esta a minha crença, baseada em factos mas também na esperança alentada pela minha condição de estudante -- suceder estrondosamente.

O estado da nação educativa

O mundo dos instrumentos educativos tem vivido uma evolução lenta ao longo dos últimos anos. Foram-se introduzindo inovações -- quadros interactivos, apresentações de diapositivos, plataformas de aprendizagem online -, foram-se informatizando as salas de aula (embora com finalidades mais burocráticas do que educativas), mas no cerne dos programas educativos reside ainda, estático, o livro, os manuais escolares. Estes não sofreram grande evolução desde os seus ancestrais produzidos em massa por monges copistas, e continuam hoje a ser um instrumento passivo, imóvel, pouco dinâmico e flexível, semanticamente imaleável. Claro que, nos níveis de ensino mais superiores, as fotocópias e materias digitais substituem os manuais, mas estes revelam ainda uma proeminência dominante nos ensinos básico e secundário.

Os manuais escolares são também muito pouco cómodos. Falando por experiência própria, ter que transportar vários manuais -- complementados por cadernos e cadernos de exercícios -- às costas ao longo de todo um dia chega a ser uma experiência penosa. E, estudos dizem-no, que poderá afectar a longo prazo a saúde dos estudantes de hoje.

Depois, em contexto de aula, os livros não são do mais atractivo possível. Não é suposto serem-no, é claro, mas há indubitavelmente uma correlação entre a qualidade dos materiais de estudo e os resultados de um estudante e, hoje em dia, num mundo em que podemos tocar e interagir como tudo o que nos é possível imaginar, os livros apresentam-se datados. A identidade tecnológica que se instala na nossa sociedade inconscientemente empurra-nos para uma empatia com tudo o que é digital.

Outro dos problemas com os manuais escolares de hoje é que são pouco interactivos e dinâmicos. Há situações em que a apresentação de uma animação ou de um vídeo se releva infinamente mais esclarecedora que uma sequência de imagens ou uma muralha de texto. As escolas secundárias em Portugal estão equipadas, na sua maioria, com quadros interactivos e vários meios multimédia, mas estes ainda impõem várias complicações logísticas: ligar o aparelho, esperar que não esteja danificado, orar para o Flash estar instalado, aguardar que o antivírus verifique a pen, finalmente abrir o vídeo/animação -- perde-se precioso tempo de aula. É certos que vários manuais fornecem complementos em CD com as referidas animações/vídeos, mas ainda asssim estes posam problemas de logística. É difícil, dispendioso em termos de tempo, mais complexo em termos técnicos do que deveria ser, introduzir conteúdos multimédia na sala de aula.

Os manuais são, e que grande problema este é, copiosamente caros! Entre custos de impressão (manuais no básico e secundário são totalmente impressos a cores, relembro), custos de publicação, distribuição, direitos de autor, materiais, facilmente um mero livro escolar atinge as várias dezenas de euros. E, dada a velocidade do progresso da sociedade, rapidamente a informação que contém se torna obsoleta. O manual não é como o software, actualizável, e o seu uso de certo modo trava os ciclos de actualização dos programas educativos.

O clássico manual escolar: dispendioso, de difícil transporte e manejo, pouco interactivo e dinâmico. Parado no tempo.

A oferta da Apple

A Apple apresentou esta semana o iBooks 2, a segunda iteração da sua plataforma de leitura, rival da Amazon Kindle Store. O iBooks está disponível para iPod, iPhone e iPad, e dava já acesso a uma vasta biblioteca de títulos disponíveis para compra e leitura em qualquer iDevice que o comprador possuísse. Com o evento desta semana, a Apple estendeu largamente o espectro da sua loja de livros, permitindo agora o acesso a manuais escolares -- que estão disponíveis apenas para iPad, no entanto.

Paralelamente, anunciou o iBooks Author, uma aplicação para OS X que permite que qualquer um facilmente crie um ebook para iPad, simplificando o processo de adaptação de um livro para o seu equivalente digital. Esta aplicação permite não só a inserção do texto como também de todo o tipo de elementos multimédia (e com suporte a adições programadas em HTML e Javascript), numa curiosa fusão entre o Keynote (o Powerpoint do OS X) e o Pages (o equivalente ao Word). A ferramenta permite que não só editores independentes, mas também as grandes editoras facilmente criem as suas publicações, sejam elas educativas ou não, de modo rápido e eficaz, prontas a disponibilizar na iBookstore.

Este evento foi em tudo acerca da entrada da Apple no mercado dos manuais escolares. O iBooks 2, com adições que facilitam a anotação e a interacção com os livros educativos, e o iBooks Author são a aposta da Apple para que as editoras -- que também elas notam o desaparecimento iminente do livro escolar convencional -- gravitem em torno da sua plataforma. Aliás, cimentando essa posição, a Apple assegurou já parcerias com as maiores editoras educativas dos Estados Unidos, e nos próximos meses surgirão dezenas de publicações repletas de vídeos, animações, exercícios interactivos, slideshows de fotos, glossários de acesso instantâneo, acerca dos mais variados assuntos, na iBookstore. E a preços bastante mais convidativos do que os dos actuais manuais escolares. Falo do anunciado Life on Earth, livro de Biologia promovido pela Apple, a 15 dólares. Numa tosca conversão momentânea, ~ 12 euros. Os últimos livros de Biologia que me passaram pela mão… não custaram 12 (ou 15, seja) euros, garanto.

Frutos

Para a Apple

Para a Apple, esta incursão numa nova área tem uma explicação puramente financeira. Porque, por mais que as empresas tenham pessoas com pretensas de mudar o mundo, são empresas e está-lhes no DNA (e no contabilista) o lucro. Mesmo que revolucionar a indústria das publicações educativas fosse um dos sonhos de criança do já falecido Steve Jobs, se não houvesse prospecção de lucro nessa área, a empresa não avançaria em tal projecto (se bem que se havia alguém que fosse capaz de criar oportunidades de negócio onde aparantemente não as havia, esse alguém era Jobs). As perspectivas lucrativas de Apple são maioritariamente em três aspectos:

  • Lucro directo/indirecto:

    Por cada venda de uma publicação paga na iBookstore, a Apple fica com uma fatia significativa dos lucros. Para além disso, a Apple vai beneficiar através de programas em grande escala para equipar escolas e universidades com grandes volumes de iPads. O iPad torna-se ainda uma opção mais apetecível e lógica para estudantes e professores;

  • Brand Loyalty: ou lealdade à marca. Prevêm-se projectos em larga escala de informatização de universidades e escolas, e um aumento nas vendas de iPads por razões primeiramente educativas. São investimentos exigentes, em termos monetários e logísticos, e mesmo que num futuro próximo surgam outras alternativas até mais vantajosas, é improvável que escolas e alunos troquem os seus iPads e a sua ligação à Apple tão rápida e levianamente. Ora, se os clientes continuam dentro do ecossistema Apple, continuam a usar os seus serviços e produtos, e a Apple continua a lucrar com as suas compras/suporte técnico;

  • Amuralhar o seu ecossistema: Um qualquer consumidor que já possua um iDevice, e já faça compras de aplicações, música, vídeo, tendo por isso um cartão de crédito associado à sua conta, não irá recorrer a outra empresa quando procura manuais/livros, se pode facilmente aceder-lhes a partir do comodismo de um ecossistema em que já está integrado. Esta atitude de lock-in, de um bloqueio no subconsciente preguiçoso dos consumidores, garante que o dinheiro caia e continue a cair, invariavelmente, nos cofres da Apple. Se é possível aceder ao que necessita num ambiente em que está totalmente imerso, qual é a razão para o cliente sequer se dar ao trabalho de procurar outras alternativas? A Apple sorri.

Para as escolas/alunos

Apesar de esta ser uma movimentação estratégica e industrial da Apple, não significa que não traga vantagens e não vá de encontro aos interesses dos consumidores. Vai, em vários aspectos.

O primeiro e mais utilitarista deles é a baixa de preço que se verificará. Eliminando-se todos os custos associados a impressão, publicação, distribuição, fatias de revendedores, o preço dos manuais em si é muito menor. Dado que o custo de produção é menor, o preço pode ser menor e as empresas continuam a lucrar. Os consumidores logicamente são beneficiados. A Apple pretende estabelecer um preço-base de 15 dólares para qualquer manual, um valor bastante mais simpático do que o preço médio de qualquer manual hoje em dia à venda. Assim, o impacto no orçamento familiar de todos os materiais necessários a um aluno, no início do ano, é muito mais suportável.

Ainda mantendo-nos no utilitarismo, a portabilidade dos manuais digitais suplanta a dos livros convencionais, eliminando a tortuosa necessidade de um estudante carregar consigo vários kilogramas às costas. A Apple focou bastante este aspecto na sua apresentação, contrastando os ~0,6kg do iPad necessário ao seu modelo de distribuição digital com os 15% do peso do estudante que as Nações Unidas indicam como peso máximo de uma mochila.

Para além destas vantagens mais mundanas, estes manuais digitais introduzem toda um conjunto de facilidades de aprendizagem. Ao poderem incluir vídeos, animações, e outros conteúdos multimédia, com acesso instantâneo sem quaisquer complicações logísticas associadas que não um toque no ecrã, a qualidade e utilidade dos instrumentos de aprendizagem aumenta. Há certas matérias que são muito facilmente explicáveis e perceptíveis recorrendo a este tipo de recursos, e este manuais interactivos agilizam essa tarefa. O iBooks 2 e o iBooks Author incluem ainda ferramentas de criação simples de glossários, de anotação e marcação de páginas, facilitando o acesso e a organização da informação para posterior estudo.

No global, as aulas tornar-se-iam, para além de mais dinâmicas, mais cativantes. A actual geração de jovens cresceu a par de iPhones e iPads, e estas são ferramentas que certamente os cativam, pela familiaridade que elas introduzem. Como há tempos os primeiros quadros interactivos nas escolas criaram uma curiosidade incentivante, também a introdução do iPad nas salas de aula o fará, disso estou certo.

Esta mudança do papel para o digital permitirá também uma certa desburocratização dos gabinetes escolares. Os livros comprados são automaticamente adicionados, pela Internet, aos dispositivos associados à conta de compra, e assim as escolas evitam toda a burocracia de encomendas, entregas, pagamentos, recibos, formulários e requisições associados ao processo de obtenção de materiais de apoio.

Senãos

O grande senão, a grande desvantagem e obstáculo à massificação deste modelo digital prende-se com as necessidades em termos de equipamento. Uma simples, porém não tão barata, necessidade: um iPad. Não é claro como as escolas implementarão este modelo: se fornecendo aos seus alunos o equipamento, se o requerindo (em caso de colégios pagos), se simplesmente não o implementando. Fala-se do lançamento do iPad 3 e de uma possível baixa de preço do iPad 2, e também de acordos para aluguer dos equipamentos pelas escolas durante um x número de anos. Toda uma renovação informática de uma escola é um processo dispendioso e trabalhoso, mas um investimento destes poderá provar-se benéfico e lucrativo a médio-longo prazo. A questão é que nem todas as escolas têm a capacidade de o fazer actualmente, e certamente aqui a Apple terá que trabalhar com os estabelecimentos de ensino na procura da solução mais prática e… praticável. Já houve várias implementações em larga escala de iPads, em vários serviços públicos -- hospitais, por exemplo -- portanto não é uma utopia.

E os Governos podem e devem ajudar. Portugal, por exemplo, iniciou há anos um processo de renovação informática dos seus estabelecimentos de ensino, com o Plano Tecnológico e agora, em muitas escolas do país, todas as salas estão equipadas com um computador. O Estado distribuiu também milhões de computadores portáteis aos alunos com a iniciativa e@escolas, pelo que se prova que equipar toda uma nação educativa não é de todo inimaginável.

Outro senão é a possibilidade de o iPad se revelar uma fonte de distracção na sala de aula. Para além de ser a geração digital, esta é igualmente a geração-que-mais-facilmente-se-distrai-com-o-digital. Este é um problema de fácil resolução, com a instalação e configuração de aplicações de restrição de acesso nos iPads, mas algo a ter em conta.

O senão que mais me entristece é, no entanto, o longo processo de importação destas tecnologias e programas. É necessário esperar que os projectos-piloto nos Estados Unidos sucedam -- e têm tudo, inclusive o apoio da Apple -, que se espalhe pela nação este modelo de aprendizagem e que, finalmente, daqui a vários anos, se plantem em Portugal as primeiras sementes para a implementação de algo deste género. E com a actual conjunctura económica, esse dia da sementeira parece estar bem distante. Contudo, prevalece a esperança. Ninguém diria, há 5 anos atrás, que todos nós daí a meia década correríamos pelo dia-a-dia libertando o stress através de pássaros voadores suicidas antagónicos da raça suína, lançados pelo toque do nosso dedo num ecrã de 4′ que corresponde à quase totalidade do dispositivo em que está integrado. Quem sabe em que ponto estarão os instrumentos educativos, daqui a 5 anos.

O último soco conta; o primeiro moraliza

A Apple entra avassaladoramente neste primeiro assalto. Este é um mercado em tardia transformação, e a Apple está a tentar resolver e monetarizar um problema que já deveria estar em resolução há muito tempo, e não necessariamente por parte da empresa de Cupertino. Houveram já várias débeis tentativas, aproximações de mercado semelhantes à da Apple, mas conduzidas por empresas insignificantes demais para serem levadas a sério e fazerem algo game-changing. Todas as empresas com a reputação e os recursos para operarem uma transformação de mercado deste tamanho -- e falo da Google, pois a natureza flexível e digitalmente poligâmica do Android torná-lo-ia ideal para dispostivos de aprendizagem na sala de aula -- subestimaram a sua importância e decidiram não investir. Principalmente porque a grande parte destas empresas ainda joga à apanhada com a Apple, no campo dos smartphones e tablets, mercados em que a maçã foi pioneira e ainda hoje beneficia dessa ousadia em inovar. E o facto dessas empresas estarem a tentar roubar substanciais fatias de mercado da Apple impede que tenham a capacidade de se concentrarem e investirem seriamente em mercados em desesperada necessidade de um abanão digital e com grandes potencialidades lucrativas, como o é o da educação.

Nos próximos tempos, veremos uma sucessão de empresas a oferecerem soluções semelhantes, mas com limitações de todo o tipo, derivado de terem sido projectadas sob pressão como resposta à liderança que a Apple vai assumir. São empresas que acorrem ao segundo lugar de um mercado prometedor, não fosse este um mercado escolhido pela Apple. Esta jogada da Apple deveria ser algo que a Google, uma empresa gigantesca com mais que capacidade para operar uma transformação destas, deveria ter realizado há muito tempo atrás. Mas foi a Apple a empresa que, nos últimos anos, se lançou com mais convicção e racionalidade em novos mercados, e essa sua iniciativa avassaladora tem anulado um pouco as capacidades criativas e o jogo de risco doutras empresas.

É certo que o último soco é definitivo, mas o primeiro levanta os clamores do público. E empresarialmente, o primeiro impacto não só surpreende, como quem o defere ganha a lealdade da audiência. Neste caso, a Apple vai ganhar não só a lealdade do público -- que causará uma avulsa à mudança, mesmo surgindo outras alternativas -, como também dezenas de implementações em grande escala deste modelo que reterão no seu ecossistema, por muitos anos, milhares de clientes. E, ganhando o mercado tracção, também as editoras gravitarão para a Apple, relutantes em assinar contratos com outras empresas recentes na área e que não possuam uma base de clientes bem estabelecida. O pioneirismo, a iniciativa e a ousadia às vezes contam, e restam poucas empresas que saibam, hoje em dia, investir em novos mercados com cartas seguras e de modo consciente e responsável. Empresas que saibam responder às necessidades que o mercado tem, mas desconhece ter.

Em certos aspectos, o mercado tecnológico de hoje é como a apanhada no jardim de infância: o miúdo mais rápido foge de todos os outros por novos trilhos do recreio, e cresce para ser um bom futebolista na primária, um veloz corredor no básico, um sensacional ginasta no secundário, um distinto halterofilista na universidade e acaba por se lançar à vida como um temível boxista. Que gosta de maçãs.

A todos aqueles famintos de novos instrumentos educativos, resta esperar, no pressuposto boxista e industrial de que o primeiro assalto define as tendências; o último é decisivo e na consciência cultural de que um desses últimos assaltos será o que, finalmente, atingirá Portugal.

Este artigo foi escrito por em 05 Fev, 2012, e está arquivado em Análises. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site.

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3 comentários em “A Apple de assalto: a importância do primeiro round”
  1. Diogo Rodrigues diz:

    Excelente artigo!
    Parabéns

  2. Parabéns Daniel!!.. Está 5 estrelas.. ;)

    Continua… ;)

    Cumps

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