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11/03/2012
Escrito por em Análises | 4.203 Leituras

A maçã-reineta é uma variedade de maçã caracterizada pela sua elevada acidez e sabor intenso, mas desprovida de qualquer suco, comparativamente a outras variedades do fruto; a Apple apresentou a mais recente versão do seu iPad esta semana num evento em São Francisco. Resumindo, foi uma apresentação-reineta.

O iPad 3, ou novo iPad como pela própria Apple foi apelidado, é uma evolução iterativa do tablet mais vendido a nível mundial. Não me irei alongar em detalhes -- uma câmara melhorada, um sobrenatural Retina Display, LTE (4G) com bateria a conforme, processador gráfico melhorado -- até porque o KeroDicas já o fez aqui, mas é inegável que esta foi mais uma actualização esperada, pouco surpreendente e excitante. Foi uma apresentação-reineta: seca, ácida e desprovida de anúncios inovadores. A Apple cumpriu, mas não se excedeu.

Com isto não quero dizer, atenção, que o novo iPad não seja um produto fantástico, porque o é. Tanto o é que vai vender como minis em dia de clássico, milhões de unidades que irão arrasar, pelo menos a curto prazo, qualquer outra alternativa da concorrência. O novo ecrã é literalmente sobrehumano e a adição de um chip LTE mantendo aproximadamente a duração da bateria (~ 1h a menos em 4G) são feitos de engenharia notáveis. A combinação de tudo isto com as restantes ofertas do ecossistema Apple -- o iOS, o iCloud, AirPlay -- tornam o iPad irresistível. Vai vender milhões e tem grande possibilidade de se tornar o iPad mais vendido de sempre.

Ainda assim, sabe a pouco. A Apple é a empresa mais valiosa do mundo. A Apple é das empresas mais ricas do mundo. A Apple tem uma legião de fãs, uma base sólida de muitos milhões de utilizadores que confia nela e lhe é impreterivelmente leal. A Apple é daquelas empresas que marcam uma geração e que tem a capacidade única e incalculável de a definir e moldar. A Apple tem a margem de manobra junto dos consumidores necessária para introduzir inovações e falhar experimentos, porque goza de um estatuto privilegiado -- de venerada -- junto deles.

Mesmo tendo em conta tudo isto, a Apple toma uma estragégia conservadora e cautelosa, medindo cuidadosamente todos os seus passos. Não é que a Apple não inove: foi na verdade a empresa de Steve Jobs a introduzir no mundo os smartphones e os tablets como os conhecemos hoje (duas das grandes inovações deste século até agora, arrisco-me a dizer), mas a partir daí parece estancar e actuar de forma medrosa e paranoicamente ponderada. Parece iterar sobre a fórmula de sucesso que descobriu, enquanto procura outras receitas tecnológicas para o sucesso, em outras áreas. Veja-se o iPhone: excluindo as actualizações e melhoramentos que o avanço tecnológico quase obriga as empresas a implementarem, que de radical as suas sucessivas versões trouxeram?

A empresa de Cupertino -- quando não está a criar novos mercados -- não é particularmente brilhante. O Siri é um aperfeiçoar do Google Voice Actions e de outras soluções previamente existentes; o Facetime é um golpe publicitário que eleva ao estatuto de preciosidade algo já existente na indústria há anos, a vídeo-chamada; o iMessage é um integrar ao nível do SO de serviços cuja idade se mede em anos, como o Viber, o WhatsApp ou o KakaoTalk; o centro de Notificações do iOS, por outro lado, é uma deprimente e descarada cópia de funcionalidade do Android, mascarada numa textura pirosa. Entre muitos outros exemplos de novidades introduzidas pela marca, relevadas pelo marketing, mas na sua essência o reciclar de velhos conceitos.

É essencial que haja uma empresa no mercado que saiba polir e refinar esses conceitos até um estado que permita a sua aceitação por parte do utilizador comum -- criatura de hábitos -- e a sua massificação. A Apple fá-lo bem e é uma entidade essencial neste ciclo das novidades. Mas ainda assim, entristece que, do alto dos seus incomensuráveis recursos, se limite a fazer isto grande parte das vezes.

É natural que a Apple seja cuidadosa e aja segundo uma audácia serena e não uma coragem rebelde de start-up. É, afinal de contas, a maior empresa do mundo, uma autoridade mundial que em muito transcende a tecnologia e com responsabilidades para com os seus investidores. Na raiz de uma empresa está o lucro e é fulcral que haja a lucidez e a moderação nas decisões estratégicas, para que não se corram riscos desnecessários que acarretem prejuízos evitáveis. Mas é esta mentalidade de start-up que muitas grandes empresas cultivam que alimenta o mundo tecnológico e o progresso da raça humana, porque a tecnologia é fundalmente o conhecimento ao serviço do Homem.

Se todas as empresas se decidissem a inovar e a iterar calmamente sobre essas inovações ao longo de um período mais ou menos extenso, o KeroDicas e a maioria dos portais tecnológicos poderiam mudar para um modelo de distribuição em magazine periódico impresso e enviado via correio aos leitores.

Em contraste, olhe-se o caso da Samsung: a Samsung rege-se por um frenético modelo de inovação num espectro bem amplo de produtos. Na última Mobile World Conference, em Barcelona, apresentou desde frigoríficos powered by Android e capazes de interagir com outros dispositivos a janelas touch inteligentes. Sem esquecer o indiscriminável Galaxy Note, que apesar de pessoalmente considerar uma abominação, consigo reconhecer-lhe a ousadia (apesar disso, já vendeu muitos milhões de unidades).

A própria Google anunciou o projecto Android@Home, um projecto destinado a ligar a domótica aos nossos dispositivos pessoais. Não é como se um cortinado inteligente, um tijolo touch ou um frigorífico falante sejam as necessidades mais imediatas do mercado, mas demonstram, por parte das empresas, uma certa consciência ética relativa à tecnologia: olharem para lá do lucro e tentarem semear a inovação e fomentar o progresso. Pode não ser o mais bem-sucedido produto agora, mas certamente é para o frigorífico falante e para a cortina touch que convergimos, e é louvável esse esforço!

Da perspectiva de alguém que usa gadgets num sentido prático e utilitário, um utilizador normal, o iPad é um produto mágico. Eu digo-o, o iPad é um produto incrível. Mas o meu lado mais fanático por tecnologia está desapontado. O entusiasta de tecnologia dentro de mim fica desapontado por ver que tendo a Apple tantos recursos e tanto talento se limita a cumprir e a ser uma empresa no verdadeiro sentido da palavra. A Apple consegue definir tendências e cimentar novidades, e a sua mentalidade conservadora por vezes atrasa o progresso desta nossa sociedade de ritmo mirabolante. Falta-lhe alguma ousadia e coragem, em certas jogadas.

Gandalf, o ancião da triologia de ficção científica O Senhor dos Anéis

À Apple, vejo-a como um velho ancião numa fazenda californiana, que da varanda da casa de campo, num fim-de-tarde solarengo, fuma o seu cachimbo enquanto ponderada e minuciosamente analisa os hectares do seu vasto pomar. Pomar na sua maioria de frutos de sabor intenso, elevada acidez e desprovidos de qualquer suco -- maçãs-reineta.

Este artigo foi escrito por em 11 Mar, 2012, e está arquivado em Análises, Outros. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site.

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2 comentários em “Maçã-reineta da Califórnia”
  1. Já estava para comentar os teus artigos desde há muito (a título oficial) mas o timming passava-me ao lado. Hoje quebro o jejum.

    Estou de acordo contigo. Não creio que o “Novo iPad” seja mau, é claramente superior aos outros da concorrência, com uma performance que apesar dos avanços de uma empresa de tecnologia gráfica, não consegue superar um equipamento da Apple. Acho que uma leitura da mensagem da Apple para a nVidia é claramente: “(Dedo do meio) We can do it better”.

    O iPad é claramente um marco tecnológico e o líder ao qual a concorrência tem ainda de comer bastante sopa para conseguir acompanhar. Mas não foi mais do que o passo lógico de evolução.

    Contudo, ainda o que me deixou mais preplexo foi mesmo o nome… estragaram com o “The new iPad”. Concordo com o que tem sido dito que a Apple teria de arranjar forma de colmatar o problema de numeração, pois a continuação até um iPad 27, seria pouco sexy. A meu ver, poderiam manter a numeração até o 5 sem perder glamour, mas nunca cortar antes do 3, que é um número bastante interessante, até na indústria cinematográfica, não? Por mim, teriam adicionado uma letra ao número e começado a contagem de novo. Como os produtos da Apple sempre tiveram o bom senso de se manterem atraentes com nomes curtos… The New iPad, corta a pica… digo eu.

    Mas não foi só a Apple que decidiu estragar o nome… recentemente, a Google estragou o Android Market com um horripilante “Google Play”. Posso estar enganado, mas eu carimbo-o com o WTF! O Andoid é o SO móvel com pior recepção nos ambientes empresariais… por isso, ao mudar a componente de Market para “Play”, acho que é uma infantilidade que não será apreciado nas correntes mais empresariais. Já um Google Store, com a abreviatura GS, acho que iria cair bem… Google Play, really? Ainda bem que a Google não é portuguesa, senão ainda iria mudar o nome do market para Batatoon :P.

    Eu sei que me desviei do tema… mas estava entalado… sorry :P.

    Bom artigo. Continua :D

    Cumps

  2. Só uma nota. O nome da nova versão do iPad não é “The New iPad”, ou “Novo iPad”. É simplesmente iPad de 3ª geração, simplesmente iPad para os amigos.

    A nomenclatura deverá seguir o esquema dos Mac’s e iPod’s. O nome é sempre o mesmo, muda a geração ou ano de lançamento. O mesmo é possível que aconteça com o iPhone.

    Quanto ao artigo… Esta apresentação foi o que se esperava.. já o iPhone 4S o tinha sido. Claro que se levantaram rumores imensos.. uma especulação gigante, mas fazia todo o sentido ser uma apresentação tal e qual como foi.. de actualização. Os próximos lançamentos sim, esperam-se melhores. Novos Macbooks, novo iPhone, novo iPad daqui a 1 ano. Aí sim, ficarei decepcionado se a Apple não inovar bem ao seu estilo.

    E atenção que a Apple não tem essa margem para falhanços.. A Apple é uma empresa diferente de todas as outras.. desperta muito mais emoções, não só aos utilizadores como também aos não utilizadores. Um produto falhado não seria fácil de digerir.

    Avançando.. em relação à falta de inovação no iPhone.. O que podem eles melhorar? Parece-me que têm feito o seu trabalho.. Apesar de os criticar bastante pela falta de algumas simples funções, até agora têm feito o seu trabalho.. Não vejo de que forma podia, para já, ter feito grandes inovações (claro que não podem continuar para sempre assim).

    Quanto ao Facetime.. não podia concordar mais. Aliás.. foi ridícula a forma como falaram dele. Não é que não seja bom.. porque é, e funciona espectacularmente bem, mas exageraram a um nível ridículo.

    Quanto às inovações das outras empresas.. é algo que tem pouco de comparável.. As outras empresas entram em vários mercados e apresentam muitos, mesmo muito produtos. A Apple tem outra estratégia. É tudo muito bem estudado, e só apresentam ao público quando pensam ter a fórmula certa, e lançam bombas no mercado (como foi o iPad).

    Quanto à Samsung em particular, no que toca a dispositivos móveis, considero o Note a melhor coisa que fizeram nos últimos tempos (e o 10.1 que aí vem tem um potencial enorme). O Note tem um target específico, não é para todos, não é uma invenção de conceitos, mas sim uma reinvenção de conceitos, juntando o conceito de tablet e smartphone, juntamente com a S-Pen, numa só ideia que considero excelente! O Note foi uma jogada à lá Apple. Dei e dou os meus parabéns à Samsung por isso. (como disse, tem, no entanto, um target específico).

    No penúltimo parágrafo, volta-se ao início. O iPad é de facto algo maravilhoso. Neste último lançamento não fiquei desapontado, já estava à espera que não fosse nada “wow”. Ficarei desapontado, sim, se nos próximos lançamentos não vir algo mais.. aí sim é razão para ficar preocupado e desiludido. Para já fizeram o necessário, e parece-me que foi o suficiente (repito, para já!).

    Os produtos Apple fizeram-me ver a tecnologia de forma ligeiramente diferente. Sempre adorei tecnologia, mexer, explorar, descobrir. No entanto cheguei a uma fase da vida em que o tempo é escasso, e cheguei à conclusão que o que preciso é de uma tecnologia que me sirva, que me facilite a vida. Por mais que goste de explorar a tecnologia, preciso neste momento de algo que simplesmente funcione. Encontrei isso na Apple, e ao meu ritmo tenho migrado para os seus produtos. Começando pelo iPod, passando pelo iPod Touch, iPhone, iPad, e recentemente Mac, os produtos Apple têm-me dado a maior parte das vezes o que preciso: que funcione, sem preocupações.

    Mas toda a tecnologia é fantástica.

    Cumprimentos. Bom artigo ;)

    PS: O título, a imagem inicial, e a conclusão a comparar com a Maçã Reineta, percebo, mas ficou um bocado para o estranho :P Acho que ficou exagerado.. Parece-me demais dizer que não há suco.. ;)

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