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Vou contar-vos uma história. A história de uma empresa cujo nome deriva do termo googol, um termo matemático que designa o número 1^100. Esta empresa parece ter incorporado um pouco dessa etimologia na sua filosofia: o número total dos seus produtos, muitas vezes sobrepondo-se uns aos outros, pende perigosamente para grandes valores. Estava na hora, querida Google, de alguma unificação.

Vou limitar-me a olhar os serviços de comunicação instantânea que a Google oferece, na óptica de um utilizador final com necessidades banais (conversas de texto, vídeo/voz, enviar ficheiros). Vejamos quais as opções que tenho, hoje em dia, para iniciar uma conversa, com possível extensão para chamada de voz/vídeo, com um dos meus contactos:

No meu desktop:

  • Utilizar o cliente do Google Talk presente no Gmail, para enviar mensagens ou efectuar chamadas de vídeo/voz. Sincroniza com o Google Talk em dispositivos móveis;
  • Utilizar o cliente do Google Talk presente no Google+, que sincroniza com o Google Talk do Gmail e o Google Talk móvel, e me permite igualmente efectuar chamadas de vídeo/voz (na verdade, estes dois clientes Google Talk – Gmail e Google + – são muito semelhantes);
  • Iniciar um Hangout do Google+, uma espécie de uma sala de conversa virtual com um máximo de 10 participantes, com voz/vídeo em destaque, permitindo também chat e todo um conjunto de extras (partilha de ecrã, Youtube, Google Docs) bastante úteis. Podemos iniciar um Hangout com um círculo do Google+ ou contactos individuais, que serão devidamente notificados. As conversas não sincronizam com o Google Talk nem com a aplicação móvel do Google+;

O Google Talk no Google+ e Gmail sincroniza-se entre si e entre a aplicação para smartphones, sendo que o histórico de todas as conversas é guardado numa pasta no Gmail (Conversas).

Através do Google Talk no Gmail é possível iniciar uma conversa com mais do que um contacto, feito que não é possível no Google+. No entanto, através do cliente de chat presente no Google+, é possível enviar qualquer tipo de ficheiros, feito de que o Google Talk no Gmail não se pode gabar.

No meu smartphone:

  • Utilizando o Google Talk no Android, é-me possível falar com os meus contactos, em sincronização com o Google Talk no meu computador. Posso iniciar chamadas de voz/vídeo facilmente e iniciar conversas em grupo, mas não posso enviar qualquer tipo de ficheiro (nem fotografia ou vídeo);
  • Utilizando a aplicação do Google+ para Android e iOS posso iniciar os ditos Hangouts com os meus círculos do Google+ ou contactos específicos, sendo que no entanto estes Hangouts se distinguem totalmente dos Hangouts criados no computador. Não há qualquer sincronização da lista de Hangouts activos e não é possível iniciar uma conversa no computador e continuá-la no telemóvel. São duas entidades e dois serviços totalmente separados. Os Hangouts no telemóvel permitem chamadas de vídeo/voz e envio de fotografias;

Convém ainda adicionar que convidando alguém a um Hangout móvel, essa pessoa só poderá interagir e participar na conversa através do seu smartphone. Receberá uma notificação no seu email e Google+, mas é-lhe impossível participar a partir da web.

Dói-me a cabeça

Estas foram as minhas constatações depois de efectuar os mais variados testes no computador e no meu smartphone Android. Espero ter sido claro o suficiente, porque para mim toda esta desorganização é avassaladora e incompreensível, por parte da Google.

No desktop, posso conversar com os meus contactos através do Google Talk no Gmail, Google Talk no Google+ e Hangouts do Google+, cada um com várias limitações.

No meu Android, a situação piora. Posso usar a aplicação móvel do Google Talk, os Hangouts do Google+ que não sincronizam com os seus homóninos no desktop, e tenho também a opção de usar SMS.

Eu tenho um sonho

Eu tenho um sonho.

Eu sonho que, no imenso universo da Google, surja um serviço que agregue todas as minhas comunicações, em qualquer plataforma;

Eu sonho com um serviço que me permita visualizar todas as minhas conversas, independentemente da sua origem;

Eu sonho com um serviço que me permita, com um clique e indiferentemente da plataforma em que eu e o meu contacto nos encontramos, iniciar conversas de voz/vídeo (por exemplo, telefone-tablet ou computador-telefone);

Eu sonho com um serviço que me permita enviar ficheiros (todo o tipo de ficheiros quando me encontro no meu computador, por limitações técnicas talvez só imagens/vídeo em plataformas móveis) sem restrições aos meus contactos;

Eu sonho com um serviço que me permita criar conversas de grupo permanentes em todos os meus dispositivos, com partilha de ficheiros e chamadas voz/vídeo agnósticas à plataforma;

Eu sonho com um serviço, que nas premissas ancestrais dos Pais Fundadores das comunicações pela Internet, me permita iniciar uma conversa com um contacto meu e preocupar-me apenas com a minha ortografia, e não com o facto de ele possivelmente não estar a receber as mensagens;

Eu sonho com um único serviço de comunicação ao longo de toda a plataforma Google.

Chamemos-lhe Google Chit Chat, por simplicidade

A Google tem a logísitica e a capacidade de fazer isto acontecer, de criar um Google Chit Chat (eu sei, eu sei, horrível), um local central de comunicações ao longo de todos os serviços Google. É simples:

Móvel

No Android, a base poderia ser a actual aplicação de SMS, Mensagens. Esta aplicação poderia manter a sua disposição actual, as conversas mais recentes com cada contacto. Mas esta lista de conversas seria bem mais abrangente. Incluíria todas as minhas conversas via GTalk, SMS, conversas de grupo e Hangouts realizadas por mim em todos os meus dispositivos, ordenadas cronologicamente.

Aliás, pede-se à Google nada mais do que construir um equivalente ao iMessage da Apple. Eu vivo num meio afastado dos grandes centros urbanos e a penetração de mercado do Android é já notória. Isto, combinado com a popularidade do Gmail, cria claramente uma oportunidade a ser explorada.

Assim como acontece nos dispositivos iOS, deveria acontecer nos Android. Quando um contacto meu faz a configuração do seu Android e associa ao seu número a sua conta Google, imediatamente eu deveria ser notificado disso. E, caso a o Google Chit Chat detectasse que tanto eu como o meu contacto estamos ligados à Internet, fosse eu enviar-lhe uma mensagem pela aplicação de mensagens, essa deveria ser enviada pela Internet, como se de uma mensagem instantânea se tratasse. Este serviço deveria ser construído sobre a infra-estrutura do Google Talk, mas em momento algum isso seria vísivel. Deveria ser uma experiência totalmente isenta desses detalhes supérfluos. Deveria just work.

Caso um de nós não estiver online, o Chit Chat limitar-se-ia a enviar uma SMS, com uma clara indicação de que o está a fazer. Na verdade, na lista de mensagens deveria estar claramente identificada a origem de cada uma das mensagens e deveria haver uma opção para rapidamente alterar o modo de envio (forçar SMS em vez de mensagem instantânea, por exemplo).

Em termos de voz/vídeo, sempre que eu e o meu contacto estivéssemos online, clicar no botão de Chamada deveria iniciar uma chamada através do serviço GTalk, possibilitando uma transição rápida para chamada de vídeo. Caso não estivéssemos ligados à Internet, uma chamada pela rede do meu operador seria efectuada.

A qualquer momento poderia enviar/receber ficheiros, talvez limitado a imagens/vídeo em dispositivos móveis.

E em relação a conversas em grupo? Aqui sim adicionar-se-ia a componente dos Hangouts. Ao adicionar um contacto/círculo a uma conversa, esta transformar-se-ia de imediato num Hangout e beneficiaria de tudo o que esse estatuto lhe confere: partilha de ficheiros entre todos, sala de conversa com voz/vídeo. Estes Hangouts seriam sincronizados com a componente web do Google Chit Chat.

Há claro condicionantes técnicas e estruturais (a questão das conversas de grupo offline e o facto de o Android as gerir de forma tosca; a instabilidade e pouca fiabilidade das redes móveis; os planos 3G limitados) e um serviço destes iria gerar controvérsia junto dos operadores móveis.

Mas é uma controvérsia muito necessária, já que os operadores móveis exploram a ignobilidade de muitos seus clientes como os Egipcíos exploraram escravos nas Pirâmides de Gizé. Os preços para os planos de dados são exorbitantes e estes são desvalorizados perante pacotes caríssimos de voz/SMS. Sabiam, por exemplo, que o custo de uma SMS para um operador é mínimo (na casa do 1^-x), pois a informação de uma SMS pode ser transmitida às torres de comunicação durante o processo de localização de sinal, que os telemóveis necessitam de efectuar constantemente para o seu funcionamento? Pois.

Web

O Google Chit Chat teria que ter uma componente web, obrigatoriamente. As actuais possibilidades de chat pelo Gmail e Google+ deveriam ser mantidas e aproximadas, oferecendo o mesmo tipo de opções. Estas serviços manter-se-iam a operar sobre a base do GTalk, mas qualquer conversa neles seria sincronizada com a página do Chit Chat.

O Chit Chat teria uma interface web, em que seriam igualmente mostradas as minhas conversas mais recentes, numa perspectiva transversal a todos os meus contactos, a todos os serviços Google e em todos os meus dispositivos. Aqui poderia continuar qualquer conversa de mensagens instantâneas/SMS caso o contacto se encontrasse online, com um histórico das últimas mensagens em todos os dispositivos aí presente (poderia haver uma opção para a importação automática das SMS, repito, opção) e possibilidade de envio de ficheiros, chamada de voz/vídeo, partilha de ecrã.

Os Hangouts (tanto criados no computador como no smartphone) estariam também aqui exibidos, mas assumindo o seu total potencial. No desktop, seria possível não só enviar ficheiros e estabelecer conversas vídeo/voz com chat, mas também partilha de ecrã, Youtube, edição colaborativa de documentos do Google Docs (tudo funcionalidades já presentes na actual versão do Google Hangouts). A conversa em texto escrito dos Hangouts estaria em sincronia com a conversa na versão mobile.

Quanto a notificações, a Google tem, na sua famosa barra superior, um indicador específico com o número de novas notificações. O Chit Chat daria um total sentido à sua existência: todas as notificações relacionadas com as comunicações seriam ali exibidas, com possibilidade de resposta directa ou acesso à interface do Chit Chat para tarefas mais avançadas.

Desenlace

Infelizmente, esta descrição deveras simplista é palavreado meu parte desta história que conto a vós, interessados em tecnologias. A implementação está limitado por imensas barreiras técnicas (a mais complicada delas uma sincronização perfeita que torne a transição entre dispositivos e serviços indetectável e indolor para os participantes), mas se há empresa que consegue fazê-lo, é uma empresa com a magnitude de talento da Google.

Claro que um sistema destes vai contribuir para a fragmentação do mercado dos serviços de comunicação instantânea pela Internet (teríamos iMessage versus Google Chit Chat versus o espectral Blackberry Messenger), mas o crescente número de utilizadores do Android valida o projecto. É uma oportunidade demasiado boa para a Google deixar escapar, e que pode no futuro utilizar como um trunfo de publicidade ao seu sistema operativo móvel e aos seus serviços de coexistência perfeita.

(Num universo ideal, todas estas empresas concordariam num protocolo de comunicação único que integrariam a preceito nos seus próprios serviços. Num universo ideal.)

A Google tem os recursos, os utilizadores, a oportunidade e o momento certo, à luz da recente campanha para unificar e simplificar a sua oferta de serviços. E bem que precisa: sua oferta em termos de comunicação instantânea está uma total imundície, perdoem-me a frontalidade. Dispersão de funcionalidades, desigualdades, descentralização e fragmentação marcam as ofertas do Google+, Google Talk na web e em Android/iOS. Como diria Martin Luther King no seu I Have a Dream, não nos embrenhemos no vale do desespero, e esperemos pacientemente pelo desenrolar dos acontecimentos.

E, Sergey, Larry, Google Chit Chat (ou Google Mexericos) não é um nome a sequer considerar para este melhor serviço hipotético de sempre.

 

Este artigo foi escrito por em 29 Mar, 2012, e está arquivado em Análises, Software. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site.

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9 comentários em “O Google Chit Chat, o pior nome possível para o melhor serviço hipotético de sempre”
  1. Bom artigo.

    Parece-me que o que eles estão a planear será algo do género, mas não tão integrado (terás as SMS e Hangouts, que substituirá o Google Talk). Isto porque os contactos do Google+ já “entram” no Gmail, etc.

    A unificação das SMS e “IM” já não é tão simples, e a fragmentação de versões — para não falar das versões e aplicações de cada fabricante — ainda torna mais difícil essa integração.

    É uma excelente ideia, sim senhor, e em teoria conseguir-se-iam fazer aplicações nativas para iOS/Android/Mac/Linux/Win visto que todos têm API’s.

    Vamos ver :)

    • A questão das SMS é uma bastante complicada. Mesmo que exequível, há todo um conjunto de barreiras de privacidade e protecção de dados, e debates acesos que irá acender, daí a ter mencionado num modelo de opt-in.

      Eu já nem pedia tanto quanto apps desktop, desde que tivessem uma boa interface web (ao género da página de Mensagens do Facebook). Felizmente a web é ubíquia e confunde-se cada vez mais com o próprio conceito de aplicação.

  2. Ora nem mais… gostei mesmo, foram horas e horas entre pensar, unificar ideias, pensar em topicos e tão bem detalhado este post. Excelente ;)

    Bom realmente o que dizes pode ser feito, e tomando em conta um frase que dizes: “A implementação está limitado por imensas barreiras técnicas (a mais complicada delas uma sincronização perfeita que torne a transição entre dispositivos e serviços indetectável e indolor para os participantes), mas se há empresa que consegue fazê-lo, é uma empresa com a magnitude de talento da Google.” pois… isso mesmo só mesmo eles.

    Tambem ja tive essa experiencia de ter que mudar de serviço entre conversa porque simplesmente não dá, e o iMessages da Apple é bom nisso.. mas não tão completo com a quantidade enorme de ferramentas de comunicação da google.

    Parabens por o post.. esta excelente ;) abraço

  3. Eu gosto de ver expostas as limitações das app’s pois nem todos têm conhecimento para tal, no entanto, a boa moda em todo o mundo…criticar é bom..fazer é mais dificil…usem abusem do que têm e ajudem a melhorar é o que vos digo…

    • Olá Filipe,

      Eu quase que me arrisco a dizer que esta unificação está mais que denunciada e é um passo necessário. A Google é uma empresa profissional demais para manter esta desordem durante muito mais tempo, e isto é algo que os utilizadores apreciarão. Se os utilizadores apreciarem, mantém-se dentro dos serviços Google -> vêm a publicidade -> a Google encaixa $.

      Além disso, criticar, construtivamente, como creio que o fiz, é sempre positivo. Não disse só que estava a mal, apresentei uma proposta bem abrangente acerca do que fazer. E acredito que ao criar um serviço destes, delinear os seus moldes gerais será tanto ou mais difícil do que a própria implementação. Portanto (na consciência de que ninguém na Google lerá isto, mas fiz a minha parte), considero isto mais um contributo para a discussão que certamente chispa nos quartéis-generais do Grande G, em Montain View :)

      E claro, continuo a ser um satisfeito utilizador do GTalk, do Gmail e do Android!

      • :wink: totalmente de acordo!

      • thiago franco martins diz:

        Daniel, parabéns pelo artigo !!!!
        Tenho pensamentos iguais ao seu sobre varias melhorias nos modelos atuais de programas…
        Gostaria que me enviasse seu contato para nós comunicar e trocar ideias…(skype, gtalk, etc…)
        Abração.

  4. A resposta e solução pra isso tudo é FACEBOOK.

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