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10/04/2012
Escrito por em Análises | 4.578 Leituras

Somos todos criaturas muito fúteis e ingénuas. Se nos acenam ao longe com qualquer coisa bonita, colorida, sofisticada ou brilhante somos logos compelidos a correr para ela despreocupadamente, o nosso juízo perdendo-se nessa névoa mental que uma boa aparência cria. Em termos formais, este é um apelo falacioso ao nosso sentido mais inevitável e incontrolável – a visão – pois não é que possamos andar por aí de olhos fechados para evitar sermos manipulados pela estética. É inegável que os olhos também comem e eu, fútil, ingénuo e vulgar apreciador do que é bom e bonito, reparo particularmente nisso quando… escolho aplicações para o meu telemóvel.

No campo das relações humanas, está provado que os homens, irracionalmente, se mostram mais simpáticos e prestáveis para as mulheres que se lhes afiguram mais bonitas ou mais vistosas – é simplesmente a nossa natureza imperfeita e injusta.

Documentary : Sexy Girls Have It Easy from Tristan Anderson on Vimeo.

Igualmente, há uma propensão irracional para a mais aprumada das estéticas na nossa interacção com o mundo à nossa volta: este sou eu a comparar as relações humanas com as relações homens-máquina, de um ponto de vista estético.

Tenho um smartphone Android e uma das minhas principais exigências é uma aplicação de lista de tarefas minimamente configurável e flexível, intuitiva e que sincronize com os meus restantes dispositivos (se possível, uma aplicação desktop, mas uma página web também serve).

Numa época já distante, utilizava uma combinação de um ficheiro de texto alojado no Dropbox, com a minha lista de tarefas seguindo uma sintaxe própria, interpretada no Android por um app própria e no desktop por um conjunto de scripts na linha de comandos. Falo do todo.txt.

Não era a solução mais bonita e usual de todas, requeria que me recordasse de uma sintaxe própria para prioritarizar e categorizar as tarefas, mas era rápida e eficaz. Funcionava. Confesso que muito do meu fascínio por essa solução residia no facto de poder interagir com ela directamente a partir da linha de comando – que ainda considero muito rápida e eficaz.

Mas com o tempo o meu córtex faminto de pixéis bem alinhados foi-me traindo e troquei o verde-fósforo do terminal pelo padrão de madeira-verniz do Wunderlist. O Wunderlist oferecia sincronização entre uma míriade de plataformas (web, Windows, Mac, Linux, Android, iOS, Windows Phone), categorização e prioritarização, notas para cada tarefa, alarmes e uma aplicação desktop bem conveniente com reconhecimento da linguagem natural – pagar os impostos até ao fim do ano adicionava uma tarefa de nome pagar os impostos com uma data limite do fim do ano corrente.

A app para Android do Wunderlist era no geral bonita e personificava a filosofia da empresa: uma atenção ao detalhe gráfico quase paranóica, numa aplicação bem construída. Porém, a empresa queria tanto manter uma identidade visual constante ao longo das várias plataformas que a experiência de utilização não gritava Android!, mas antes Wunderlist!. Usei-a por uns tempos.

 

Entretanto a Google anunciou o Ice Cream Sandwich com toda uma nova imagem visual e experiência de utilização, e chegava um miúdo novo ao bairro das listas de tarefas: o Any.DO.

Comparativamente ao Wunderlist, o Any.DO era fresco e refrescante, mais intuitivo e objectivo, animado de transições, gestos e padrões de interacção (por exemplo, deslizar o dedo sobre uma tarefa para a marcar como completa – como que a desviando da nossa atenção – ou abanar o telemóvel para eliminar as tarefas já realizadas) que tornavam a experiência de utilização mais natural e humana – um dos motes que regrou a nova filosofia de design do Ice Cream Sandwich – e no geral uma interface mais simplificada mas ainda assim completa.

Mas com o Any.DO, perdia a sincronização universal entre os meus dispositivos, já que a aplicação se limitava a dispostivos móveis (Android, só para que conste, existindo uma promessa que começa a soar velada de apps para iOS e uma versão web), sincronizando no entanto com o Google Tasks. Para dizer a verdade, nem eu nem a Google levamos o Google Tasks a sério, pelo que em termos de sincronização estava bastante limitado.

O Any.DO trazia no entanto, para além da interface, algumas funcionalidades úteis: integração com os contactos presentes no telemóvel que, combinada com o reconhecimento inteligentes de tarefa, permitia escrever Text Contacto X e daí resultar uma tarefa que num toque permitia iniciar a tão badalada chamada para o Contacto X; uma janela de notificação após cada chamada perdida que permitia adicionar rapidamente uma tarefa para posteriormente ligar a esse contacto, outra após cada evento que permitia adicionar eventuais afazeres que dele resultassem; partilha de tarefas via email… catalisadores vários da produtividade.

 

Portanto, um pouco custosamente, migrei manualmente toda e cada uma das minhas tarefas guardadas no Wunderlist para o Any.Do, que foi a minha lista de tarefas predilecta até há pouco mais de uma semana, quando tomei conhecimento do Tasks (auto-explicativo, creio).

O Tasks é uma aplicação bem recente, que sincroniza com o Google Tasks e apresenta uma interface conformante com as directrizes sugeridas pela Google no sua página do Android Design. O Tasks segue as recomendações da Google relativamente aos padrões de interacção, aspecto e navegação na app, criando uma experiência equiparável à das apps nativas do ICS, que a Google muito bem refinou.

O Tasks sincroniza apenas com o abandonado Google Tasks, não tem aplicações desktop, não tem nenhum dos gestos e aditivos à produtividade do Any.DO, não permite definir alarmes para horas específicas e a sua versão grátis é financiada por anúncios. É o Google Tasks em versão app para Android, mas desta vez, contrastando com muita da oferta presente no Market, num embrulho bem adornado.

Mesmo dada toda esta discrepância funcional, foi num piscar de olhos que decidi mudar a minha lista de tarefas para o Tasker. Porquê? Porque eu sou um fútil e ingénuo ser, que se deixa irracionalmente seduzir pelo que é bonito, brilhante, colorido ou sofisticado. E porque o Tasks se integra mais no Ice Cream Sandwich do que o Any.DO e a experiência de utilização é superior e aprazível. É só natural e previsível utilizar o Tasks, porque é bonito, funcional e intuitivo (a curva de aprendizagem é nula, para quem esteja a usar o ICS há 15 min).

E isto sou eu. Estou disposto a fazer concessões, a sacrificar funções, a alterar as minhas rotinas por um deisgn bonito, apelativo e intuitivo. Estou disposto a sacrificar a função pela forma, porque sou uma criatura de gostos e sensações e uma boa forma transmite-me uma sensação de prazer (e, por favor, não extravasem estas afirmações para as relações humanas, sim?). Ainda que a função seja fulcral, a forma não o é menos. E nós como utilizadores conscientes não devemos conformarmo-nos com uma função efectiva em forma sub-óptima. Ou com uma forma brilhante mas uma função ineficaz (daí o facto desta aplicação, o Tasks, ter recebido já vários pedidos de novas funcionalidades – deslizar para marcar como completa, horas definidas para alarmes – que a equipa se mostrou receptiva a implementar).

Assim como eu o faço, é minha crença de que muitos utilizadores devem ser conscientes ao ponto de privilegiarem quem se esforça por oferecer uma experiência de utilização superior. Excepto casos de utilizadores agrilhoados a necessidades muitos específicicas, não há razão para não se exigir e procurar o mais bonito aos nossos olhos. Mesmo não sendo designer ou sociólgo, irrita-me quando o design é desprezado.

A forma e a função correlacionam-se e entrelaçam-se em qualquer aspecto do mundo à nossa volta. Uma harmonia entre ambas agrada-nos. Steve Jobs, que descrevia a Apple como estando bem na intersecção entre as humanidades e as ciências naturais, profetizava já esta correlação no Design is not just what it looks like and feels like. Design is how it works. E parece que, prova-o a Apple, prova-o a Braun, prova-o a Mercedes, bem na intersecção entre a forma e a função, está o sucesso e a satisfação do cliente.

Eu gosto de coisas bonitas (e agora podem extravasar às relações humanas). Portanto, estilistas, arquitectos, criativos, programadores, pais, tenham atenção aí ao design e dêm-me coisas bonitas.

Este artigo foi escrito por em 10 Abr, 2012, e está arquivado em Análises, Software. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site.

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1 comentário em “A cena do design: uma perspectiva leiga”
  1. digitalista77 diz:

    Parabéns, gostei muito deste artigo. E partilho a mesma opinião.

    Bom trabalho.

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